O samba e a guerra particular no Rio de Janeiro


Por Thales Ramos

Como tem samba para tudo e todos, segue um Top 10 de sambas -e os respectivos intérpretes e letras- que de certa forma têm a ver com a situação atual. A segurança pública do Rio de Janeiro passa por dias difíceis e o Estado dá ao problema status de guerra. Acho que é um pouco cedo para fazer algum diagnóstico, mas por ora, apenas uma certeza: os mais pobres e humildes são os que sofrem mais. Nos bairros menos abastados a população convive com fogo cruzado, fogo nos carros, fogo nos ônibus. Falta transporte público, que quando funciona “direito”, já é ruim.

Os sambas abaixo falam de favela, polícia, bandido, corrupção, tiroteio, preconceito, povo, comunidade e etc. Feitas em épocas distintas, as canções são um retrato de seu tempo, mas também tem muito a ver com a atualidade.

Todos os sambas listados podem ser escutados no nosso player ao lado.

1- O dia em que o morro descer e não for carnaval (Wilson das Neves/Paulo Cesar Pinheiro)(1996), Wilson das Neves. A letra supõe o que pode acontecer no caso da favela se revoltar diante da ausência e inoperância do Estado. Talvez seja a mais representativa da lista. ”Ninguém sabe a força desse pessoal/melhor é o Poder devolver à esse povo a alegria/senão todo mundo vai sambar no dia/em que o morro descer e não for carnaval”.

2-Numa Cidade Muito Longe Daqui(2006) (Arlindo Cruz/ Franco/Acyr Marques), Leandro Sapucahí. A relação, às vezes estreita, entre bandidos e mocinhos no Rio de Janeiro é abordada. “Porque tem homem mal/Que vira homem bom/Porque tem homem da lei
Que vira homem mal”.

3- Na subida do morro (Originais do Samba), Originais do Samba. Mussum e sua turma fazem uma análise dos moradores e a malandragem do morro, fazendo um grande samba. A música foi sampleada no cd de José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, traficante notório dos anos 80. O raper Xis interpreta a canção, que relata a fuga espetacular de Escadinha do presídio de Ilha Grande. Escutem aqui.

4-Opinião(1964) (Zé Kéti), Zé Kéti. O clássico do portelense exalta o espírito de comunidade da favela. Já nessa época, alguns excessos eram cometidos pela polícia contra os moradores.“Podem me prender/Podem me bater/Podem, até deixar-me sem comer/Que eu não mudo de opinião/Daqui do morro/Eu não saio, não”.

5-O morro não tem vez(1963) (Tom Jobim/Vinicius de Moraes), Jair Rodrigues e Elis Regina. O poetinha e o maestro pedem voz ao morro por uma cidade mais feliz e cantante. “Quando derem vez ao morro/toda cidade vai cantar”.

6-Catatau(1991) (Guará), Jovelina Pérola Negra. A voz potente de Jovelina narra a abordagem desastrosa da polícia a um morador do Vidigal, Catatau. “E nem a sorte daquele inocente lá do vidigal/Que fez chorar o soldado/Que muito mal orientado, não pode evitar o mal/E nem a sorte daquele inocente lá do vidigal”.

7-Amor à favela(2009) (Arlindo Cruz/Rogê), Arlindo Cruz. Numa hipotética volta de Cartola ao morro da Mangueira, muita coisa mudou. O jovem anda um pouco mais dernoteado e a favela menos musical e poética. Música linda.

8-Meu bom juiz(1996) (Serginho Meriti/Beto Sem Braço), Bezerra da Silva. Escadinha é personagem desse samba eternizado na voz de Bezerra da Silva. A letra fala do lamento do Morro do Juramento, pela detenção do traficante. Muita espirituosa e engraçada, como toda obra de Bezerra.

9-Cabide de emprego(2002) (Chico Anísio/Dicró). Dois mestres em fazer rir, Dicró e Chico Anísio esclarecem a estrutura trabalhista do crime. “Se não fosse o crime, muita gente morria de fome/O vagabundo é quem garante o pagamento dos homens/Eu não faço apologia, mas infelizmente é verdade/Existe o bem e o mal/Em todo canto da cidade”.

10-Favela (Arlindo Cruz/Acyr Marques/Ronaldinho), Arlindo Cruz. Em mais um belo samba de Arlindo, ele fala de preconceito e do amor as raízes. “Nem sempre a maldade humana/Está em quem porta um fuzil/Tem gente de terno e gravata/Matando o Brasil”.

10 Respostas para “O samba e a guerra particular no Rio de Janeiro

  1. Bela seleção. Só senti falta do ponta esquerda, o 11. Cabia “Nomes de Favela” do PC Pinheiro aí. Abraços.

  2. Baba ovo do Arlindo!
    😛

    Podia ter Favela do Candeia e Jaime
    Ontem estive no morro e voltei chorando…..
    ou
    Minha gente do morro, também de Candeia e Jaime
    Não é mole não
    Acordar segunda-feira
    Pra tentar ganhar o pão

    ou Monsueto
    Levou um pão para casa/ Todos queriam um bico/ Mas o pão era um só/ Um prato de pirão d’água/ Todos sentados ao redor/ No centro do prato, um ovo/ Mas o ovo era um só/

    Tá… viajei… mas são uns baitas!!
    Essa do Monsueto eu aprendi com Marcão, um carioca que vive em Balneário Camboriú, num samba numa cidadezinha perto de Curitiba.

    • Anedsio Rodrigues, mi m t otxa k jam matal…cond m uvi ess som mdze ess pessoa parce kel…ma algum cosa t dzem k sim,era esrhtnoe se mi k tava reconhece um d nhas mentor com quem jam partilha palcos desd 1999 kkk

  3. Pingback: Operação Guilhotina, samba e homens maus « O samba é meu dom·

  4. Bela lista!

    Senti falta de Mauro Duarte e seu memorável samba de lamento. Cabiam duas canções do “Bolacha” aí:

    Samba do Eleitor

    “Doutor não esperava essa do senhor,
    errou ,ao ser eleito esqueceu do eleitor,
    fez tanta promessa até agora
    com a sua ingratidão o morro inteiro chora.
    Torneiras o senhor colocou
    mas acontece que a água não chegou,
    está cheia de poços a favela,
    mas até hoje a luz ainda é vela…”

    Morro

    “Corro, quase morro
    sem socorro lá no morro,
    bem pertinho da cidade
    em luta com a adversidade…”

    Essa última em parceria com Dona Ivone Lara.

    Abraços!

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